[Resenha] O Boneco

O Boneco (2011) narra a história de Mocinha, uma menina órfã de 15 anos, que vive em uma região isolada na zona rural em companhia das tias Iza e Severina. Mocinha tem uma origem humilde e se divide entre as tarefas domésticas e as brincadeiras de criança; divisão representada pelo comportamento das tias que a criam. Enquanto Iza encoraja o lado lúdico e o apego à infância, Severina é mais rígida e cobra um comportamento mais sóbrio por parte da sobrinha.

Em O Boneco, a inocente Mocinha tem suas ilusões desfeitas ao encontrar com o malicioso Sued.

Com uma imaginação bastante fértil, a menina conversa com brinquedos e animais como quem dialoga com amigos (como a lagartixa Adelaide). Um dia, quando vai buscar água em um poço, a moça encontra um boneco de pano abandonado e o leva para casa e, rapidamente, o brinquedo se torna seu melhor amigo. Noutro dia, voltando ao lugar onde encontrou o boneco, Mocinha se depara com pegadas que a levam a uma criatura suspeita que se identifica como Sued.

 Sued se mostra uma figura aparentemente amigável e com uma fala elegante e persuasiva que contrasta com o linguajar regional simples e ingênua da menina, que ao notar a maneira teatral com que o sujeito se expressa, pergunta se ele é do circo e recebe a enigmática resposta: “Todos nós trabalhamos em um circo. Tudo em nossa volta se resume ao enorme picadeiro. Estamos apresentando uma peça para vários espectadores. Quando a peça acabar, as luzes se apagarão, mas o circo continuará aqui. Condenando os que desejam a eternidade”.

A partir desse encontro, a história que parecia calcada na realidade sertaneja da protagonista, começa a se revelar como uma fantasia com elementos de terror sobrenatural. Com o passar da história, a linha que divide imaginação, sonho e realidade começam a se confundir, de modo a atiçar a curiosidade do leitor e verdades estabelecidas pela narrativa começam a ser desfeitas.

A menina começa a ser perturbada por pesadelos e pelas artimanhas de uma entidade que está ligada aos tormentos do presente e passado da vida da protagonista e que se ofende com a capacidade que o povo pobre nordestino tem, apesar de todas as adversidades, de encontrar felicidade nas pequenas coisas.  Em determinado momento o vilão se revela: “Eu sou a mancha sem cor que resta do pecado. A promessa de que existe o inferno me reacende”.  

O autor Wagner de Oliveira consegue aliar uma ideia simples a uma bela arte, a fim de contar uma boa história, que mistura cultura nordestina, religião e terror; estabelece bem a personagem principal e seu mundo e desenvolve um mistério de forma objetiva e satisfatória, tendo um desfecho que surpreende e que não se alonga demais a ponto de se tornar cansativa, nem se encurta demais de modo ficar mal explicada.

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