[Resenha] Mapinguari

Mapinguari (2010), História em Quadrinhos de Deuslir Cabral, acompanha os irmãos Duda e Neto, crianças que, durante a noite, são despertadas por uma criatura mítica conhecida como Mapinguari. Ele os convoca para uma jornada urgente, alertando que um grande mal se aproxima de terras mágicas e ameaçadas.

Crianças enfrentam ameaça mágica guiadas pela lendária figura do Mapinguari.

Relutantes a princípio, os irmãos atravessam uma passagem para um mundo fantástico, onde peixes voam e indígenas brotam do chão como feijões. Nesse universo singular, descobrem que os povos originários travam uma guerra contra os Homens-Cinzentos (figuras carecas, vestidas de terno e desprovidas de emoção), que invadem o território indígena para saquear seus recursos e apagar sua identidade. O Mapinguari torna-se guia e aliado dos meninos, apresentando-lhes aquele novo mundo e ensinando-os a utilizar sementes como fonte de poder.

A narrativa tem ritmo acelerado, com foco principal na ação, o que deixa pouco espaço para o desenvolvimento dos personagens, inclusive dos protagonistas, e do próprio cenário fantástico. Embora essa abordagem funcione dentro da proposta de uma HQ infantil e de leitura rápida, a história ganharia mais profundidade com uma ambientação visual mais rica e uma contextualização mais clara do universo mágico e sua relação com o nosso mundo.

O desfecho da aventura acontece de maneira abrupta e utiliza o conhecido recurso do “será que foi apenas um sonho?”. No auge do conflito, a narrativa retorna subitamente ao “mundo real”, com as crianças despertando em seu quarto. O leitor não acompanha a conclusão da batalha nem as consequências da jornada, o que pode causar certa frustração.

O roteiro é dinâmico e aproveita bem o espaço das páginas, evitando um tom didático, mesmo que em alguns momentos beire a superficialidade. Há, porém, transições bruscas entre quadros que dificultam a compreensão de certas sequências. Apesar disso, algumas páginas revelam uma construção narrativa eficiente e inspirada.

Com seus altos e baixos, o saldo final é positivo. Deuslir Cabral demonstra ser um artista em desenvolvimento, mas com notável potencial como contador de histórias. Mapinguari é uma fábula infantil envolvente, que entretém e, ao mesmo tempo, abre espaço para reflexões sobre a exploração desenfreada da natureza e o desprezo do sistema capitalista pelo passado e pela cultura indígena.

O embate entre os povos nativos e os Homens-Cinzentos pode ser lido como uma crítica ao desmatamento e à lógica predatória do progresso. Mais que isso, o conflito simboliza o embate entre a infância (livre, criativa e mágica) e a dureza da vida adulta, com sua pressa e imposições.

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