Grupehq: 50 anos do movimento precursor dos quadrinhos no RN

Em 1971, Natal sediou a 1ª Exposição Norteriograndense de Histórias em Quadrinhos, evento que se tornou um marco decisivo para a consolidação da nona arte no Rio Grande do Norte. A iniciativa não apenas reuniu artistas e entusiastas, como também deu origem ao Grupo de Pesquisa e Histórias em Quadrinhos (Grupehq), coletivo responsável por impulsionar a produção local de HQs e por revelar sucessivas gerações de quadrinistas potiguares.

Ao longo de sua trajetória, o Grupehq, tanto de forma coletiva quanto por meio de seus integrantes individualmente, publicou narrativas gráficas em revistas próprias e coletâneas, produziu charges para jornais locais e nacionais, desenvolveu cartilhas publicitárias e educativas e atuou na promoção de exposições, salões, cursos de desenho e pintura, consolidando uma base estrutural para o campo dos quadrinhos no estado.

Da esquerda para a direita: Lindberg Revoredo, Emanoel Amaral, Reinaldo Azevedo, Luis Pinheiro e Anchieta Fernandes, em 1971.

Movimento anarquista

Após passar alguns anos morando no Rio de Janeiro, onde teve tentativas frustradas de ingressar no mercado editorial por ainda ser menor de idade, Emanoel Amaral retornou a Natal em 1970 decidido a viver do desenho. No ano seguinte, já empregado no Diário de Natal, Amaral articulou a realização de uma exposição dedicada às histórias em quadrinhos. Para isso, entrou em contato com ilustradores com quem havia mantido relações tanto na capital potiguar quanto no Sudeste do país. O resultado foi a realização da 1ª Exposição Norteriograndense de Histórias em Quadrinhos, realizada na Biblioteca Pública Câmara Cascudo, entre 15 e 22 de maio de 1971.

Cabramacho estreou em 1974, trazendo histórias de humor.

O encontro promovido pela exposição reuniu jovens artistas e pesquisadores e funcionou como catalisador para a criação do primeiro Clube de Histórias em Quadrinhos do Rio Grande do Norte, posteriormente denominado Grupehq. O grupo inicial era formado por Emanoel Amaral, Lindberg Revoredo, Reinaldo Azevedo, Luís Pinheiro, Anchieta Fernandes, Falves Silva e Ademar Chagas, contando com a mentoria do professor Walfredo Brasil, também conhecido como Dom Lucas.

“Não foi uma exposição de aparecer alguns ‘gatos pingados’, mas uma exposição de muita frequência, muita visita e muito interesse. Então, mais ainda, eu me senti com razão de dedicar meu tempo à pesquisa da história em quadrinhos como educador”, lembrou Walfredo Brasil em depoimento ao documentário Grupehq – 25 anos de quadrinhos potiguares. “Emanoel então se mostrou interessado não somente naquela exposição, mas em nós fazermos uma reunião para compormos um clube”, acrescentou.

Em agosto de 1971, o Grupehq lançou a revista Gibi Notícias e conquistou espaço no Diário de Natal com o suplemento Quadrinhos, inicialmente semanal e depois diário, permanecendo em circulação até novembro de 1972. Desse período destacam-se personagens como Super-Cupim, de Emanoel Amaral; Tenente Wilson, de Luís Pinheiro; O Coveiro, de Reinaldo Azevedo; Inigma, de Ademar Chagas; e Dom Inácio, o Bispo de Itaipu, de Lindberg Revoredo. Anchieta Fernandes atuava como articulista, escrevendo textos críticos sobre artes sequenciais.

“Não foi uma criação, uma empresa nem nada, uma instituição. Foi um movimento. Um movimento meio anarquista, nada com muito rigor. Inclusive, no inicio, eu me desdobrava, porque além de trabalhar, de fazer as coisas no Diário de Natal, eu ainda ajeitava os desenhos dos caras, fazia as letras, fazia os quadros, era um trabalho grande pra mim. Incentivava os caras, às vezes, os caras não tinham terminado nada, eu ia ajudar a terminar; insuflava, fomentava”, relatou Emanoel Amaral sobre o desgaste que tinha no começo do Grupehq.

Não havia remuneração financeira; a principal recompensa era a visibilidade. Buscando sustentabilidade econômica, o grupo passou a produzir cadernos especiais sobre episódios históricos e biografias (como o Nascimento de Cristo, a Independência do Brasil, Santos Dumont e Câmara Cascudo) financiados por meio da venda de espaços publicitários.

Tamanho não é documento

Entre periodos produtivos e de inativadidade, a Maturi teve três fases distintas.

A partir de 1973, tem início a chamada segunda geração do Grupehq, com a entrada de nomes como Aucides Sales, Adler Pereira, Cícero Correia, Enoch Domingos, João Antônio Fernandes, Edmar Viana, Francisco Alves e Tarcísio Motta. Nesse momento, Emanoel Amaral afastou-se das HQs para dedicar-se a atividades mais lucrativas. O que poderia significar o fim do grupo acabou se tornando um período de renovação, com Aucides Sales assumindo protagonismo no cenário das narrativas gráficas locais.

Em março de 1974, Aucides Sales e Lindberg Revoredo tornaram-se sócios em uma gráfica, o que viabilizou o lançamento da revista Cabramacho, dedicada a histórias curtas de humor. A publicação circulou em diversos estados do Nordeste, mas foi encerrada após três números em razão do fim da sociedade. Segundo Sales, o fechamento do espaço para quadrinhos no Diário de Natal fez com que muitos artistas retornassem à produção individual, enquanto ele e Lindberg decidiram investir na publicação independente, adquirindo equipamentos próprios para viabilizar seus projetos.

“O Grupehq, naquela formação original, não era realmente um grupo, eram pessoas que se agrupavam. Cada um tinha uma dinâmica distinta e trabalhava independentemente. Quando o Diário de Natal fechou o espaço para os quadrinhos, praticamente voltou ao que era antes, cada um do seu lado. Eu e Lindberg não nos conformamos com a situação e resolvemos continuar publicando nós mesmos, comprar maquina de offset para fazer o nosso trabalho”, explica Aucides Sales.

(Da esq. p/ dir.) de pé: Ivan Cabral, Luiz Elson, Evaldo Oliveira e Adrovando Claro. Sentados: Emanoel Amaral, Marcio Coelho e Aucides Sales.

A semente que mais renderia frutos aos quadrinhos potiguares, porém, seria plantada em 1976 sob o nome Maturi. Influenciada por autores underground como Robert Crumb e por revistas europeias como Metal Hurlant, a publicação apresentava histórias de humor ácido e contestação política, social e cultural. Seu lema “tamanho não é documento” refletia tanto o formato reduzido quanto sua postura estética e editorial. Com dimensões de 12 × 8 cm, a revista buscava reduzir custos de impressão e ampliar a circulação.

“Inicialmente, quando ela [Maturi] começou, trouxe a novidade de, em termos de divulgação em geral, de ser a menor revista, de menor tamanho, que surgiu no Brasil. Isso já foi uma novidade. Depois ela se tornou um veiculo da linguagem da juventude na época, uma linguagem rebelde, que não respeitava os moldes tradicionais, os moldes do sistema”, comenta Anchieta Fernandes.

A revista cujo lema era “Tamanho não é documento” tornou-se a publicação mais icônica do Grupehq, alcançando projeção nacional, especialmente graças ao apoio do cartunista Henfil, que morou em Natal e levava exemplares da revista em suas viagens ao Sudeste. Entre 1976 e 1977, foram lançadas sete edições. A descontinuidade do projeto, segundo Enoch Domingos, refletia as dificuldades financeiras enfrentadas pelos artistas independentes, que muitas vezes não dispunham de recursos sequer para adquirir material básico.

 “O pessoal vai se afastando quando não vai dando lucro. Não é todo mundo que aguenta essas coisas, só os artistas que tem muita fé. A maioria não tem dinheiro, você não pode comprar tinta, papel” aponta Enoch Domingos sobre a descontinuidade do projeto.

O ataque de Lampião a Mossoró (1981) foi um marco nas HQs potiguares.

Em 1982, Aucides retomou a Maturi tendo Francisco Alves como editor, numa fase marcada pela presença de jovens talentos lapidados pelo Atelier Central (órgão da Secretaria de Estado da Educação e da Cultura que era usado como sede do grupo na época). Adrovando Claro, Cláudio Oliveira, Carlos Alberto, Edmar Viana, Gilvan Lira, Ivan Cabral, João Antônio, Luiz Elson, Marcio Coelho e Marcos Garcia contribuíram nesse período, que também contou com participações especiais de Flávio Calazans, Mozart Couto, Rodval Matias e Watson Portela.

Nessa etapa, a Maturi permaneceu sendo publicada até 1987, com 22 edições em dois formatos: 10,5 x 15 cm e 15,5 x 21 cm. Na época, vários fanzines surgiram tendo a revista do Grupehq como referencia, entre elas, Tapuru, Acunha, Epopeia Potiguar, Tabefe e Cafuné.

Botem a história na rua

Paralelamente, em 1981, Emanoel Amaral retornou aos quadrinhos e, ao lado de Aucides Sales, criou a revista Igapó, dedicada a narrar episódios da história do Rio Grande do Norte. Logo em sua edição de estreia, a dupla publicou O Ataque de Lampião a Mossoró, obra que se tornaria o maior sucesso do Grupehq, com tiragem inicial de dois mil exemplares e diversas reedições posteriores.

“A primeira tiragem foi de mil [exemplares], vendeu tudo em menos de um mês, não sobrou mais nada, fizemos mais mil e vendeu também rapidamente, aí teve ouras edições. Aucides ainda fez várias edições, o pessoal de Mossoró publicou também, da Fundação Ivan Rosado, o Sebo Vermelho publicou também. Teve várias edições, com várias capas diferentes”, expõe Emanoel Amaral sobre o sucesso de O ataque de Lampião a Mossoró.

Após o primeiro número, a publicação entraria em hiato devido a Amaral ter passado cinco anos morando no estado do Acre; com o retorno deste, a revista foi retomada em 1987, narrando a história do cangaceiro Jesuíno Brilhante. Outra edição de destaque de Igapó, foi o numero 7 que relata as consequências da Revolução Francesa, desenhada por Evaldo Oliveira e noticiada nacionalmente em jornais da Rede Globo. Igapó teve ao todo nove edições produzidas até 1989.

HQs com temas relacionados com a história do RN é uma das marcas do Grupehq.

“[Câmara] Cascudo, o pessoal visitava muito ele lá, ele gostava de quadrinhos e fez um pedido para a gente: ‘façam a história do Rio Grande do Norte em quadrinhos. Botem a história na rua para todo mundo ver’. Aí a gente tentou se organizar para fazer isso”, comenta Aucides Sales sobre o incentivo de Câmara Cascudo para a produção de HQs com temas históricos.

A década de 1990 para o Grupehq seguiu a tônica e foi marcada por publicações de cunho cultural e apelo histórico como A História do Rio Grande do Norte em quadrinhos (1998), além de HQs relacionadas a cidades do estado como Assú, Caraúbas, Ceará-Mirim e etc. e biografias de figuras relevantes como Auta de Souza (1993) Alberto Maranhão (1994), André de Albuquerque (1997). Em 1992, estreava O Cascudinho, suplemento infantil produzido pelo grupo de quadrinistas potiguares e vinculado ao Diário de NatalO Cascudinho era editado por Aucides Sales com Histórias em Quadrinhos com temáticas educativas, tiras cômicas, passatempos e notícias sobre o cenário artístico do estado.

Em 2005, foi lançada Os Guerreiros das Dunas, ficção histórica passada na época da colonização do território potiguar, com roteiro de Emanoel Amaral e desenhos de Gilvan Lira, Márcio José e Watson Portela. Em 2007, a Maturi – Edição Especial marcou a retomada da clássica publicação, com formato e acabamento mais sofisticados. Apresentada ao público durante a IV Bienal do Livro de Natal, em 2007, a revista incluía histórias e tiras de Márcio Coelho, Aucides Sales, Emanoel Amaral, Luiz Elson, Ivan Cabral, Gilvan Lira, Cláudio Oliveira e de Williandi Albuquerque.

“Maturi retorna a circular, agora em nova fase, mais madura, mais exigente. Desejamos que ela seja um canal de expressão da nossa cultura e que possibilite a novos artistas a divulgação de seus trabalhos e que resgate e valorize a obra daqueles que contribuíram com sua arte na construção da história do quadrinho norte-rio-grandense”, explanava o texto de apresentação da edição especial, creditado a Emanoel Amaral, Luiz Elson e Marcio Coelho.

Os quadrinhos do Grupehq serviram de inspiração e estabeleceram um padrão que baseou muita publicações que as seguiram.

Entre abril de 2008 e 2012 a revista teve mais seis edições publicadas mantendo o novo formato e trazendo temáticas relacionadas à história, folclore e cultura do estado. O número 1 da nova Maturi foi lançada em 24 de abril de 2008, com direito a exposição montada no Natal Shopping. Em 2010, a edição número 2, que trazia releituras da obra de Luís da Câmara Cascudo, conquistou o prêmio de Melhor fanzine/Revista em Quadrinhos Independente, oferecido pelo site Bigorna. Em 2016, a revista retornou com duas edições que celebravam seu quadragésimo aniversário.

Novos capítulos

Cinco décadas após sua fundação, o Grupehq permanece como referência central na história dos quadrinhos potiguares. Sobrevivendo a períodos de inatividade, mudanças geracionais e dificuldades financeiras, o grupo desempenhou papel decisivo no amadurecimento da cena local e segue em atividade, agora dividindo espaço com novos coletivos e artistas independentes.

Alcançando os 50 anos de sua fundação, Sua trajetória permanece aberta, à espera de novos capítulos a serem desenhados.


Emanoel Candido do Amaral (1951-2019): jornalista e cartunista potiguar, membro fundador do Grupehq, criador do personagem Super-Cupim e coautor das Histórias em Quadrinhos O Ataque de Lampiâo a Mossoró e Os Guerreiros das Dunas.

Anchieta Fernandes foi Jonalista, escritor, pesquisador de quadrinhos. Colaborou com os jornais Tribuna do Norte, Diário de Natal e A República. É autor dos livros Desenhistas Potiguares, Por uma Vanguarda Nordestina, Écran Natalense, Capítulos da História do Cinema em Natal e foi um dos fundadores do movimento do Poema-processo em Natal.

Nascido em João Pessoa, Walfredo Brasil (1928-2010) foi um ex-frade, professor de matemática e pesquisador das Histórias em Quadrinhos, mudou-se para Natal em 1968 onde foi um dos fundadores do Grupo de Pesquisa e Histórias em Quadrinhos (Grupehq).

Aucides Bezerra de Sales artista plástico, professor, estudioso da cultura indígena, membro do Grupo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos, criador da série de tiras Trombstone City e revistas Maturi e Igapó.

6 comentários em “Grupehq: 50 anos do movimento precursor dos quadrinhos no RN”

  1. Olá. Sou o Marcio Coelho e quero parabenizar pelas excelentes matérias do blog. O conteúdo demonstra que quem escreve tem conhecimento do que fala.

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    1. Olá, Marcio. Agradeço pela visita e pelo comentário. O contato com os artistas e o reconhecimento destes é algo muito importante para o crescimento do trabalho que venho realizando. Seja sempre bem vindo a nos visitar e deixar sua opinião, quando assim desejar.
      Abraço.

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